Ele estava tão descarnado que o focinho parecia pequeno e a pele feia, enrugada. Os pelos ralos, mas não por alguma doença de pele. Era um sintoma evidente de desnutrição. As pulgas o comiam vivo, já prevendo que ele não duraria muito tempo. No chão, um pouco de farinha de milho seca era o único alimento disponível para o cão. Mas apesar da fome que devia doer em seu estômago, o cão era alegre e tinha um olhar vivaz. Ele tinha fome de viver.
O nome do cãozinho era Macho e sua idade, apenas 10 meses. De sua prole só ele continuava vivo. A irmã, de nome Preta, tinha morrido de desnutrição há dois meses. Quem me contava isso era a mãe de uma das meninas que cuidavam dele.
“As crianças pegam e elas cuidam”, disse a mãe. Eu já tinha ouvido aquilo de outros adultos na aldeia. Os adultos são mais pragmáticos, sabem que não podem alimentar mais uma boca. Mas as crianças se apegam, brincam com eles e os cães acabam seguindo-as até em casa.
As duas meninas que cuidavam do Macho eram a Angelina e a Graziela, de 9 e 7 anos. Espertas, inteligentes, boas alunas. Mas, não sabiam muito bem como cuidar de cães. Faziam seu possível. Moravam em uma casinha de piso de terra e madeira tosca à beira da barranca do rio. A casinha de um cômodo não tinha banheiro nem cozinha. Um fogo de chão na porta era onde a comida era feita.
Para chegar na casa, era preciso atravessar uma pontezinha de troncos de madeira, equilibrando-se precariamente para não cair no rio. Foi atravessando essa pontezinha com o Macho nos braços, que consegui salvar a vida dele naquele dia.
Era o dia do Mutirão de Castração, em janeiro de 2023, uma data que a Ação Amigos da Aldeia tinha conseguido mobilizar com a Clínica Veterinária Projeto Castração, liderada pela Dra. Marina, para levar castração gratuita a dezenas de cães da aldeia. Ao fazer a triagem, a Dra. Marina me chamou com uma dúvida no olhar. Alguns cães estavam tão desnutridos que não podiam ser castrados. Macho era um deles.
Eu o levei para a escola, com Angelina e Grazi, e uma das voluntárias que acompanharam a Dra. Marina, prontamente o atendeu. Ela lhe deu um banho, tirou bernes, aplicou um antipulga, vermífugo, deu alimento para desnutrição e o deixou dormindo na clínica improvisada o dia todo, até que a equipe se desmobilizasse.
Foi neste momento que tirei a foto do Macho, já de banho tomado, sendo mantido ali na clínica para que a voluntária pudesse acompanhá-lo. O fiz sentar-se e no momento da foto ele olhou para o lado. A pele enrugada e descarnada em destaque. Dá para ver um pouco de seus olhinhos brilhantes e vivos, eles estão ali.

“A família não tem recursos para alimentar o cão”, contei às outras voluntárias que me perguntaram como um cachorro chegaria naquele estado. “Mal têm o que comer, por bem, as crianças se alimentam na escola”.
A escola da Tekoá Marangatu é fundamental não apenas para a educação chegar à aldeia, mas para que os estudantes recebam alimentação adequada diariamente. É também um ponto de mobilização da comunidade. Naquele dia de mutirão, duas salas foram preparadas pelos indígenas para receber a clínica móvel da Dra. Marina. Uma das salas para as cirurgias e a outra para cuidados do pré e pós operatório. É tudo muito ágil e eficaz. Todos os funcionários da clínica e voluntários trabalham diligentemente levando seu melhor.
A voluntária trouxe um saco grande de ração e explicou para Angelina e Grazi como alimentar o Macho: “duas vezes por dia, peguem duas mãos grandes de ração e coloquem em uma tigela para ele comer”. Elas ouviram com atenção e imitaram o movimento da voluntária, mostrando que aprenderam.
Deixamos as duas em casa com Macho limpinho e medicado e um saco de ração. Reforcei as instruções e Angelina correu para encontrar uma panela velha para servir de tigela para o cão. “No mês que vem eu volto e quero ver se vocês estão cuidando bem do Macho”, disse como incentivo.
Não consegui ir na casa por dois meses seguidos, pois a chuva forte arrastou a ponte e o acesso ficou difícil. Mas a família recebeu a ração e três meses depois consegui chegar lá. “E o Macho, está bem?”, perguntei. As meninas olharam para mim, sem entender e eu percebo que um cão preto bonito e alegre está me rondando.
Olhei para ele, sem acreditar. “Este é o Macho?”, perguntei. Elas responderam com a cabeça afirmativamente. “Este?”, reforcei a pergunta, incrédula. Elas riem. É sim o mesmo cachorro. Com os olhos marejados de alegria e surpresa, abracei as duas meninas, parabenizando pelo que fizeram. Elas não só seguiram as instruções, mas aprenderam com a voluntária da clínica que era importante checar o pelo para procurar bernes e dar banho no cachorro.
Daquele bichinho desnutrido à beira da morte não sobrou nem lembrança! Ele está com o olhar mais vivo que nunca. Pula em mim e eu o agrado com cafunés. O pelo está macio e sedoso e agora mostra sua verdadeira cor em um preto lustroso. Até a cara dele mudou! Está mais cheinha, agora tem carne, não só ossos e um focinho quadrado elegante se revelou. Faço ele se sentar e tiro uma foto.

Esta foto é a prova de que vale a pena tudo o que a gente faz pela aldeia. Levar alimentos, fortalecer a educação, ensinar, se interessar, ouvir, aprender. Não sou eu fazendo isso, pois uma pessoa sozinha não faz nada. Somos vários e precisamos ser sempre mais. Pessoas que doam seu tempo, seu dinheiro, alimentos, roupas, ração, que se mobilizam, que se articulam e mobilizam outros, que têm vontade de aprender, de sair do conforto de sua casa.
Muitas vezes, estamos tão acostumados com o conforto, que nem percebemos que existem pessoas que precisam de nossa ajuda. E que não precisamos ter a vida perfeita e encaminhada para ajudar, apenas um gesto, um desejo, dar o seu melhor naquele momento.
Agora que você conhece a história do Macho, compartilha comigo o quão difícil é saber que ele não foi o único cão desnutrido a chegar à beira da morte na aldeia. Que muitos estão lá, precisando do mais básico, alimento, e de algum cuidado de saúde.
A comparação do antes e depois do cãozinho Macho é chocante:

Abandono de animais na aldeia
Você sabia que a maior parte dos cães da aldeia Tekoá Marangatu foi abandonada por outras pessoas nos arredores e acolhida pelas crianças indígenas? Pois é, muita gente não sabe e acha que os indígenas não cuidam bem dos animais. Mas a realidade é que quem cuida deles são crianças que não tem condições de alimentar os bichos e também não sabem como cuidá-los quando adoecem.
É por isso que dentre os itens que arrecadamos para a aldeia, a ração canina é fundamental! E também precisamos arrecadar medicação para cães e gatos, como antissépticos, vermífugos, antiparasitários e antinflamatórios.
São ações desse tipo que fazemos na aldeia, mas para isso, precisamos de sua ajuda, pois sozinhos, não fazemos nada. Somos uma grande rede que se move em compaixão em benefício de todos os seres. Faça parte dessa rede!
Faça sua doação pelo PIX CNPJ: 23.314.409/0001-88
Se quiser colaborar de outra forma, converse com o monge Altair Tokushi: (48) 98467-3606.
Saiba mais sobre o que fazemos na Ação Amigos da Aldeia desde 2017: https://institutosergiomurilo.com.br/acoes/
Esta história foi vivenciada e escrita por Juliana Frandalozo, voluntária e coordenadora da Ação Amigos da Aldeia, desde 2019. As imagens são do arquivo pessoal da autora e não podem ser copiadas sem permissão. Licença CC: permitido copiar a imagem apenas se solicitar permissão da autora.
***********************************